Archive for the ‘Filosofia de boteco’ Category

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Uma pausa

fevereiro 18, 2014

Sabe,

Quando a gente tá confuso em relação à forma que vai dizer uma coisa, é melhor repensar. Adie a conversa, se for necessário. É imprescindível estar seguro do que quer explicar, porque se dessa forma nem sempre somos compreendidos, fica um pouco pior se temos dúvidas antes mesmo de publicizar o pensamento.

Tenho vivido uma fase de descobertas, de mergulhos nas possibilidades. É delicioso, mas em alguns momentos a insegurança fica querendo aparecer, e aí eu dou uma recuada pra refletir e dar o próximo passo com segurança.

Eu falei isso tudo pra explicar a ausência de textos por tanto tempo por aqui. Escrever sobre mim mesma e as minhas fraquezas tem mexido comigo, e eu senti a necessidade de evitar um pouco a conversa, entender melhor o que estava vivendo pra poder dividir os sentimentos com a mesma espontaneidade que sempre fiz.

Estou muito feliz de ter feito isso, agora volto com uma carga nova, e prometo voltar aos textos semanais. Concluirei a série com uma postagem sobre minha relação de amor e ódio com a atividade física, e depois quero falar mais sobre os temas que me tocam na vida. 

Quem quiser continuar comigo, será um prazer receber e conversar por aqui.

 

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Faltando alguma coisa

março 17, 2013

Sabe quando chega um móvel novo, você monta até com uma certa facilidade, e no final fica sobrando uma peça? Aquela peça veio junto,  tem características parecidas com as restantes, mas por algum motivo o objeto ficou pronto sem precisar dela. Inicialmente você pensa, observa onde está faltando, qual o erro, mas nada está fora do lugar.

A partir daí, a busca por uma explicação sobre aquela peça que está fora do lugar se torna um problema. O medo do que ela possa representar (já pensou se esse móvel se desmonta quando eu colocar minha TV em cima?) muitas vezes faz com que o móvel seja desmontado e remontado diversas vezes, na busca de explicações. Até que se desista e deixe aquele problema esquecido, mas não explicado.

As vezes a vida da gente parece que está com tudo no seu devido lugar, mas tem uma pecinha sobrando, que é lembrada com incômodo. Aquele momento em que bate uma angústia enorme, uma insatisfação que desmotiva, mas você não consegue entender a razão. Não adianta montar e remontar o móvel, não há uma solução. Normalmente o assunto foge da cabeça quando aparece outro (normalmente sem muita importância), que atrai a sua atenção. Cada vez que a sensação volta, ela vem com mais força, menos tolerância.

Se nessa metáfora esdruxula, que eu inventei para tentar descrever um sentimento abstrato, o móvel é a vida, não dá pra jogar ele fora, e comprar outro. Principalmente porque ele está bem, funcionando, inteiro e em boas condições. Mas aquela inexplicável peça sobressalente…

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Todo dia é dia

janeiro 4, 2013

E quando o ano-novo não vem automaticamente acompanhado de boas energias?

Tem horas que a vida parece que simplesmente desandou. Nada está bom, problemas que já haviam sido encarados e superados voltam a assustar, novas angustias parecem dominar a tentativa de alimentar o otimismo… Quando a gente menos espera, vai perdendo o ânimo, a disposição, vai se entregando ao negativismo. Esperando que a coisa se reverta, esperamos o dia em que isso tudo vai passar. Mas o tempo vai passando, e nada acontece. Uma das coisas mais difíceis é assumir que sempre arrumamos justificativas que só servem pra manter as coisas erradas no lugar errado.

Por piores que as coisas pareçam, mudar de posição gera um desconforto, e quanto mais a gente vai se acostumando com uma situação, menos percebe o quanto as coisas poderiam ser diferentes. A mudança assusta, mesmo quando se sentem péssimas, as pessoas tendem a resistir ao novo.

Apesar de toda a energia positiva que paira nessa época do ano, o balanço que fiz me trouxe a constatação de que me acomodei em um cenário que me desagrada. Fui me deixando levar pelas circunstancias, e quase sem perceber fui me deixando estragar conquistas interessantes. Cheia de planos, desde a dieta ao planejamento de desafios profissionais, uma gripe me derrubou nesse início de ano. E em meio a uma onda de apatia que vem me abatendo, a gripe foi o arremate, do pior começo dos últimos anos.

Querendo fugir do clichê, não vou falar em “sacode a poeira”. Acho que é o momento pra fugir de formulas prontas, encontrar o próprio foco, e me concentrar no que realmente desejo. Já que as condições físicas adiaram um pouco os planos, aproveitei mais uns dias pra rever os planos. Tracei metas ambiciosas pra 2013, e com uma planilha dessa, cada dia faz toda a diferença no resultado.

Acho que foi o meu irmão que me disse uma vez que meta não foi feita simplesmente pra ser atingida (ele que me perdoe se a menção não for verdadeira), é pra ser uma motivação que nos leve aos nossos limites, que nos faça superar sempre. Por isso as vezes é bom se propor ao impossível, pra que ele sempre esteja à nossa frente, e a gente não desista. Se não conquistou, renova o planejamento, revê as estratégias, e continua tentando.

Então pra começar 2013, desejo que cada leitora e cada leitor do meu blog siga em frente. Renovando a esperança e a motivação em cada momento que achar necessário, mesmo que não seja o primeiro dia do ano, nem o primeiro dia útil, nem segunda-feira, nem nada. Desejo boas energias, desafios enfrentados, e muitos momentos de prazer.

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Findeanofobia

dezembro 20, 2012
Imagem roubada da internet, só pra ilustrar

Imagem roubada da internet, só pra ilustrar

Tenho visto nos últimos dias, nas redes sociais principalmente, a declaração de pavor ao período de final de ano. As pessoas criticam o clima de confraternização, e alegam que “é muita falsidade, gente que passa o ano inteiro sem dar bom dia, agora ficar de beijo e abraço”.

Tudo bem, há verdade nesse protesto, mas ele é realmente válido? Vejo uma sociedade carente pré-disposta a um mínimo de humanidade, um pouco de carinho, energias positivas, sorrisos mais constantes. Essas pessoas, que sem perceber passam o ano inteiro correndo, gritando, e de mau-humor, são vítimas da lei da concorrência, da competição do “crescimento”, do “aperfeiçoamento” interminavel… A lei que diz que tempo é dinheiro, e o trânsito é estressante porque eu “estou perdendo tempo”. Se fosse só falsidade, o mercado publicitário não passaria o ano inteiro lucrando com mensagens positivas, os livros de auto-ajuda não seriam tão bem vendidos.

Aí vem uma época do ano em que é permitido desacelerar, algumas empresas dão uma trégua e mandam mensagens positivas, bonificações, brindes. Ao invés da pressão rotineira, um ou dois dias sem cobrança, aquele rosto sisudo te abre um sorriso e deseja felicidade. Não é o momento para começar uma amizade, ou achar que os problemas estão resolvidos, mas é hora de aproveitar o que a vida pode nos dar de melhor, energias positivas.

Minha família tem vários problemas, como todas. Mas eu acho uma delícia ter dias no ano em que se reúne todo mundo e, entre uma garfada e outra, dá risada com as coisas de sempre.

Não sei como as pessoas podem preferir a grosseria aos desejos constantes de prosperidade. Claro, eu preferia que as pessoas fossem sinceras, mas se elas estão pensando em me bater ou me soltar uma agressão verbal, prefiro que ela guarde esse sentimento e seja simpática, nem que seja porque o mundo vai acabar.

Sou ateia, não acredito no espírito de Jesus, mas acredito que a melhor forma de aproveitar a vida é trocar energias com pessoas, gente que como diria um amigo muito querido “diz sim pra a vida”. Que está sempre disposta a sorrir em troca de um sorriso, abraçar, pelo simples prazer que isso traz. Essas são as pessoas que estão prontas pra recomeçar, depois que alguma coisa dá errado, que vão levar a positividade e a alegria, durante o ano inteiro (e não só no facebook, viu?!).

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Samba: A nossa melhor herança

novembro 22, 2012

Roda de samba Sem Hora Liberdade já tem público fiel nas tardes de sábado do Maikai

Dos filhos desse casamento entre África e Brasil, com certeza esse é o mais popular. Atravessando séculos e derrubando preconceitos por onde passa, o tradicional samba de raiz volta a fazer parte, se renova e se perpetua, conquistando e unindo gerações.

Foi lá no inicio da história do Brasil quando nossos antepassados africanos passavam pelas mazelas da escravidão, que o som do batuque apagava a dor, mesmo que por instantes. Essa influência da música cheia de ritmo, unida com criatividade que o povo brasileiro em criar poesia, nos trouxe essa herança tão rica. Nascido na Bahia, o Samba chegou ao Rio de Janeiro lá nos idos de 1800, e hoje é patrimônio cultural reconhecido no mundo inteiro.

Como a indústria da música tem suas fases, o samba teve seu momento mais escondido.  Durante algumas fases, não era tão comum sair de casa e encontrar com facilidade um bom samba de raiz em qualquer barzinho ou choperia do circuito mais popular na noite de Maceió. Além do MPB (que toca um pouco de tudo que agrada o público, inclusive alguns sambas famosos), axé, forró, pagode e a tão estourada febre do sertanejo universitário na última década talvez tenham sido os responsáveis pelo período de menor expressão do samba aqui.

Mas o cenário atual prova que as raízes do samba estão cada vez mais fortes. Em evidência na agenda cultural de Maceió, o ritmo hoje é opção de um número cada vez maior de adeptos, que lotam estabelecimentos de entretenimento com sorrisos, samba no pé, letras na ponta da língua e muita energia. Bares badalados como Maikai, Alagoana e Orakulo já tem em sua agenda permanente um espaço reservado para um pandeiro e um cavaquinho.

Para os que preferem a beleza do simples, do tradicional boteco de bairro, as opções são ainda mais variadas. As tardes de sábado no bar do Lula, por trás do CEPA, continuam regadas a deliciosas cantorias. Do Benedito Bentes ao Santo Eduardo, sempre tem uma roda de samba esperando por você.

Já consagrado, Nosso Samba anima noites de sábado no Orákulo com casa sempre cheia

Sem preconceitos, esses locais tem reunido pessoas de variadas idades, raças, classes sociais, e até mesmo ritmo (não precisa fazer curso de dança pra se divertir nesses lugares, cada um se diverte como sabe). O jornalista Antony Campos resume o que sentiu ao conhecer uma dessas opções: “É um ambiente leve, onde as pessoas vão mesmo mundo curtir boa música e cair no samba, na maior tranquilidade. Gosto da energia do ambiente, parece que todo mundo se torna feliz lá. O bom samba parece que tem mesmo esse poder”.

Essa euforia toda é forte arma no combate ao preconceito. Não só na interação que a música proporciona, mas nas letras carregadas de cultura que trazem elementos satanizados pela mídia. É em meio a muitos sorrisos, que a religiosidade afro é desmistificada e vista de forma positiva. Além disso, é comum encontrar a exaltação da beleza negra, nessas mesmas letras.

*Texto publicado no dia 20 de novembro de 2012, no encarte especial em homenagem ao dia da consciência negra, no jornal Tribuna Independente. Uma produção da Cojira-AL, que eu tenho o maior orgulho de fazer parte.

 

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Com prazer, sempre!

novembro 4, 2012

Eu vivo ouvindo as pessoas falarem em felicidade, buscarem por toda a vida esse apogeu, relatarem o que falta a elas para serem felizes. Eu vejo a publicidade utilizar essa palavra pra vender tudo, desde refrigerante a remédio para a prisão de ventre. A impressão que tenho é que a felicidade é mais um conceito criado para manter a insatisfação viva dentro das pessoas, para que elas continuem buscando e se frustrando.

Felizes para sempre significa o que? Eu não conheço ninguem que consiga definir o que poderia ser alguem feliz para sempre. O que realmente vale a pena?

Pelo que consigo entender, o conceito de felicidade é uma coisa abstrata, relativa, não se consegue definir exatamente o que significa, mesmo assim todo mundo vive querendo ter, porque imagina que seja melhor que a sua realidade.

Em uma sociedade capitalista como a que vivemos, aí é que a coisa se confunde mesmo. O objetivo é ficar rico, pra poder comprar a felicidade.

Eu decidi que agora vou priorizar o prazer. Momentos prazerosos são, por si só, a melhor coisa que se pode ter. E para que essa sensação seja uma coisa cada vez mais constante, é preciso perceber as várias formas de encontrar prazer.

O caminho pode ser prestar atenção a todos os prazeres, dos mais obvios (como os sexuais e os do paladar) aos mais automatizados (como um simples bom dia). Ao contrário da dor, ou do tédio, não podemos achar que o prazer deve ser reservado para um momento raro.

Se o meu dia tem 24 horas, eu quero que pelo menos 80% dele seja reservado a coisas que me proporcionam prazer. Por isso o trabalho que escolhi não me oferece muitas possibilidades de crescimento financeiro, mas me permite ter sensação de prazer de diversas formas, seja ao fotografar expressões e momentos, conhecer uma realidade distinta da minha, ou até mesmo traduzindo em palavras os anseios de outras pessoas.

A satisfação em realizar o meu trabalho, uma coisa tão comum e corriqueira, faz com que a minha vida não seja um fardo a ser carregado, na busca quase que inconsciente pelo fim-de-semana, ou das férias. Esses dois são ótimas oportunidades de explorar outros prazeres, mas não podem ser a única graça da vida.

A sensação de prazer é uma coisa física, que a ciência explica facilmente. Acredito que em todo mundo é um pouco parecida. A diferença está na forma em que se desencadeia essa sensação, e é aí que está a beleza da coisa. Eu gosto de praia, você gosta de musica clássica, não preciso me expor a um concerto, e você não precisa ficar se torturando com a areia grudando na sua pele. Se não dá prazer, pra que insistir?

Dois grandes prazeres da minha vida, experimentar coisas novas e fotografar. Essa foto eu fiz em uma prazerosa manhã de domingo.

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Sobre o culto ao corpo

agosto 21, 2012

Desde o início da adolescencia, sempre tive dificuldades em lidar com o meu próprio corpo. Uma relação doentia dificil com a comida me fez viver os últimos 15 anos em uma briga permanente com o espelho.

Não enxergar em mim mesma o que eu fui ensinada que era o bonito e ideal, me fez deixar de viver coisas que todo mundo vive nessa época. Durante anos escolhi a reclusão, até passar pela experiência participar de um grupo de teatro e descobrir novas formas de ser vista e ser tratada. Parece bobo, mas o processo de autoonhecimento (que acho que não tem fim) começou alí, e me fez começar a viver sob uma outra perspectiva.

Eu, que sempre evitei escrever sobre isso, introduzi essa primeira postagem com esse pequeno drama pessoal porque me dei conta de que isso é um problema social, e deve sim ser discutido.

Em todos esses anos devo ter emagrecido umas dezenas de kilos, sempre experimentando a sensação de ver as pessoas mudarem o comportamento em relação a mim, como se o tamanho do meu braço ou das minhas coxas fizesse diferença no fato de eu ser agradável ou não. Sim, eu tenho amigos e amigas que ficaram imunes, mas eles são rarissimos.

Vivemos em um mundo contraditório, em que o convívio social sempre empurra o consumo de alimentos que são condenados pela medicina. Esses mesmo produtos que somos ensinados a sentir falta, e o nosso corpo aprende a depender, se tornam vilões, como aquele cigarro “inocente” que o adolescente fuma escondido pra ser aceito pelos amigos na escola.

E a industria das dietas me soa cada vez mais horrenda, mas eu continuo me rendendo a ela. Evito as coisas óbvias, as modas, os óleos de côco ou as centenas de produtos diet/light, mas é difícil alguem passar algumas horas conversando comigo e não ouvir as palavras “dieta” ou “engordar” nenhuma vez.

No início deste ano, cheguei a um patamar nunca antes atingido. Eu ouvi que estava louca, que deveria parar de emagrecer. O prazer sádico que eu sentia em ver as pessoas preocupadas com a minha saúde se confundia um pouco com a sensação de que ainda havia muito a perder. É o maldito padrão, os malditos números inalcançáveis que as revistas lidas a vida inteira me impunham. Hoje, depois de voltar a engordar e perder mais uma vez o controle, estou tentando recomeçar.

Acredito que passarei o resto da vida convivendo com isso. E apesar de passar por cima de centenas de preconceitos e conseguir colocar na prática muito do meu discurso que combate essa prisão que os padrões impõem, me sinto uma fraca ao não conviver de forma saudável com o fato de ser gorda.