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Me livrem dessa culpa

novembro 13, 2014

Se tem prisão maior que a culpa na sociedade atual, eu desconheço. Esse maldito sentimento que colocam na gente de forma inconsciente, ao longo de uma vida inteira, que nos impede de fazer quase tudo.

Ensinaram-me a comer, estudar, a trabalhar, a conversar, a andar… Mas, antes de tudo isso, me ensinaram a sentir culpa. Porque antes de qualquer coisa, me disseram que a mulher cometeu “o pecado” que nos tirou o direito de usufruir o paraíso. Depois eu ouvi que aquele menino mal vestido estava assim porque a mãe dele não se preocupou direito antes dele sair de casa. E a minha amiga, que teve o seu nome circulando na sala em uma folha de papel em que cada um dos meninos acrescentava um desaforo, tem culpa porque não sabia se comportar.

A culpa é sempre nossa. Eu não arrumei namorado no ensino médio porque comi demais e fiquei gorda. A empregada que foi estuprada pelo filho do patrão foi uma aproveitadora que seduziu ele. A piadinha que eu ouvi a caminho do ônibus quando tava indo para a faculdade, era culpa minha. Quem mandou eu vestir aquela calça justa? E cada chocolate, cada sorriso, cada beijo na boca, cada porre que eu resolver tomar, eu preciso saber que vai me custar bem caro. Porque prazer não é uma coisa que se tem direito assim.

Faça o que quiser, se você for mulher, nunca se livrará da culpa. Se o cara não me liga no dia seguinte, a culpa é minha que não soube me comportar. Se a gente ganha mais que o marido, é culpada por “ferir a masculinidade” dele. Se ele trai, ela não satisfez o seu homem. Até a violência, a gente faz por merecer. Se ele era casado (mesmo que eu não saiba), eu que fui seduzir o homem das outras. Se eu sinto desejo, tenho culpa, não sou mulher direita. Se não sinto, também tenho culpa, não sou mulher o suficiente.

Se o dinheiro nunca é suficiente, a culpa é minha que gastei demais. Quem mandou me sensibilizar com a propaganda que me disse que eu só seria aceita (no emprego, pelos homens, e até mesmo pelos desconhecidos na fila do restaurante), se utilizasse aquele bendito sapato, aquela bolsa incrível, aquele perfume milagroso…?

A culpa é sempre minha. E não importa o que eu faça, eu sempre vou estar errada. Nasci mulher, e isso já é erro suficiente para eu passar o resto da vida pedindo perdão.

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